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“Hoje fazemos o turismo da devastação”, entre as minas de Minas Gerais, no Brasil
Indice A paisagem passa rapidamente pela janela enquanto deixamos Belo Horizonte, a capital do estado de Minas Gerais, no sudeste do Brasil. Em certo momento, a vista se abre diante de nós e Guilherme Fonseca, analista de riscos do Instituto de Direitos Humanos (uma organização que apoia os defensores de direitos humanos na região), aponta para uma montanha ao longe:
“Aquela é a Pedra Grande. É um polo de ecoturismo aqui na cidade.
E, em geral, para todos os entusiastas de escalada e esportes de aventura.” Parece um típico pico de montanha perto de um grande centro urbano. Um lugar onde os moradores vão nos fins de semana para passar um pouco de tempo em contato com a natureza.
“Mas, na realidade” – continua Guilherme – “por trás de toda a encosta está devastada pelas atividades de mineração. Deste lado, há uma área protegida, então as empresas não podem extrair.
Do outro lado, elas estão tentando avançar o máximo possível, chegando ao limite da zona de exploração à qual acreditam ter direito.” Nosso olhar percorre a área ao redor, enquanto Guilherme aponta rapidamente os depósitos na região: uma sucessão de minas, barragens para armazenamento de rejeitos de mineração e maquinários gigantescos. Conforme a estrada desce e as casas nos arredores de Belo Horizonte gradualmente obscurecem nossa vista, Guilherme conclui amargamente:
“Hoje fazemos turismo de devastação. Não é turismo ecológico, é turismo de destruição.” O estado das minas No dia anterior, nos encontramos na sede do Instituto de Direitos Humanos em Belo Horizonte e, diante de um mapa do estado, Maria Emília da Silva, vice-diretora do Instituto e coordenadora geral do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos em Minas Gerais, nos disse:
“Minas estava cheia de montanhas. Mas, hoje, a mineração está causando a destruição delas.
Por exemplo, se vocês voltassem aqui daqui a seis meses, provavelmente nos perguntariam ‘Mas onde está aquela montanha que existia ali?’ O problema é que ela não existirá mais.” A mineração em Minas Gerais é uma questão histórica – a região foi descoberta entre os séculos XVI e XVII por colonizadores portugueses em busca de metais preciosos -, mas também geográfica. Guilherme traça uma linha no mapa: “Temos a Serra do Espinhaço, uma cordilheira que começa aqui, na região metropolitana de Belo Horizonte, e se estende até a Bahia (estado que faz fronteira com Minas Gerais ao norte, n.d.r.). São 1.500 quilômetros de montanhas, todas com potencial de mineração.” Se vocês voltassem aqui daqui a seis meses, provavelmente nos perguntariam ‘Mas onde está aquela montanha que existia ali?’ O problema é que ela não existirá mais.
Maria Emília da Silva, vice-diretora do Instituto de Direitos Humanos Algumas jazidas já estão sendo exploradas. Muitas outras serão.
Mesmo hoje, a economia de Minas Gerais permanece estruturalmente dependente da mineração. Os minerais representam aproximadamente 40% das exportações do estado e o ferro, sozinho, atinge 30%.
Produto fundamental da economia mineira desde o início do século XX, o ferro de Minas Gerais supre atualmente mais da metade da demanda global. Hoje, o ouro e as pedras preciosas como diamantes – principais recursos durante o período colonial, ao ponto de sustentar toda a economia da colônia e grande parte da economia continental por décadas – contribuem com uma pequena parte para a balança comercial.
Porém, o que vem emergindo cada vez mais, do nordeste de Minas Gerais – onde se localiza o Vale do Jequitinhonha – é o lítio, estratégico para a transição ecológica global. A abundância de jazidas – no que já foi chamado de Vale do lítio – impulsionou, portanto, uma explosão de planos de investimento e projetos de mineração em larga escala, envolvendo diversas empresas, em sua maioria estrangeiras.
Uma lógica predatória “Nos séculos XVI e XVII, os colonizadores levaram toda a nossa prata e grande parte do nosso ouro. A situação continua a mesma hoje.
No Brasil, e particularmente aqui em Minas Gerais, o objetivo é a exploração desenfreada dos recursos naturais. Nossa riqueza é extraída e exportada para outros países, enquanto nós ficamos sem nada”, enfatiza Maria Emília.
Em tom resoluto, ela continua, listando os nomes de algumas multinacionais atuantes no estado: “Em Brumadinho, está a Herculano, ligada à Anglo American.
Em Paracatu, está a Kinross Brasil Mineração, afiliada a uma multinacional canadense. Depois, temos as operações da anglo-australiana Bhp (cuja subsidiária brasileira é a Bhp Samarco, n.d.r.).
Em Araçuaí, está a canadense Sigma. Há também rumores – nada oficial ainda – de que Elon Musk comprou alguns depósitos aqui, porque contêm terras raras.
Portanto, a maior parte da atividade econômica está nas mãos do capital estrangeiro.” Caminhões de mineração, cobertos de poeira vermelha, no centro de Brumadinho (março de 2026) © Aurora Guainazzi Guilherme retoma destacando a lógica predatória das grandes multinacionais, interessadas apenas em maximizar seus próprios lucros, impulsionadas pela crescente demanda global por minerais, sem levar em consideração os impactos ambientais e sociais da extração: “Quando uma empresa quer abrir uma jazida, ela precisa apresentar diversos estudos – antropológicos, hidrográficos, geológicos, econômicos e de impacto socioeconômico – ao Conselho Nacional do Meio Ambiente, que é composto por representantes do governo, da sociedade civil e de órgãos reguladores.” “Mas” – ressalta – “não confiamos nesse órgão”.
Na verdade, é muito fácil para as multinacionais contornarem as leis e obterem as concessões que desejam. Antes de mudar de assunto, ele menciona – como exemplo – o caso da Serra do Curral, nos arredores de Belo Horizonte.
Mais tarde, digito algumas palavras-chave no site de busca e a tela do meu computador se enche de artigos sobre a Operação Rejeito da Polícia Federal e as investigações subsequentes. A investigação, iniciada em 2025, revelou uma vasta rede de corrupção, envolvendo as empresas brasileiras Minerar S.A. e Gute Sicht, acusadas de pagar inúmeros subornos em troca de concessões em áreas protegidas da Serra.
Enquanto leio sobre as investigações, as palavras de Guilherme não me saem da cabeça: “Temos as leis.
E, de fato, acredito que a legislação ambiental brasileira seja importante. O que falta é torná-la verdadeiramente eficaz.” Devastação ambiental Igarapé é uma cidade no Quadrilátero Ferrífero, a região de Minas Gerais que produz cerca de metade do minério de ferro do mundo.
Tudo, ao nosso redor, está coberto por um pó vermelho: são os metais pesados provenientes das minas a céu aberto que pontilham a área e dos veículos pesados que constantemente entram e saem. Temos as leis.
E, de fato, acredito que a legislação ambiental brasileira seja importante. O que falta é torná-la verdadeiramente eficaz.
Guilherme Fonseca, analista de riscos do Instituto de Direitos Humanos Chegamos à mina Tico-Tico, um dos depósitos mais importantes da região. As operações são gerenciadas pela Mineração Morro do Ipê S.A., uma joint venture controlada pelo grupo Mubadala (um fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos) e pela Trafigura (uma multinacional de comércio de commodities com sede em Singapura).
Entramos na clareira em frente à entrada da mina, mas rapidamente damos meia-volta. A segurança é rigorosa e não queremos chamar a atenção.
Continuamos por algumas centenas de metros e paramos em uma clareira ao longo da estrada. “Esta estrada na encosta da montanha foi construída especificamente para dar suporte às operações de mineração”, explica Guilherme.
“De um lado, temos as atividades de mineração; do outro, a reserva ambiental que a empresa alega que está desenvolvendo e protegendo como compensação pelos impactos de suas operações.” De fato, além dos metais pesados, o preço pago pelos habitantes da região é enorme. A poluição das águas subterrâneas é algo comum em todas as cidades do Quadrilátero.
Paradoxalmente, a água – abundante devido à presença de vários rios – muitas vezes torna-se inutilizável para consumo devido à contaminação por metais pesados. As vibrações de máquinas e as explosões causaram o desabamento de vários edifícios, tornando muitos outros inabitáveis e forçando muitos animais a fugir de seus habitats naturais.
As águas marrons do rio Paraopeba, onde, após o rompimento da barragem na mina do Córrego do Feijão em Brumadinho, foram despejados aproximadamente 1,6 milhões de metros cúbicos de lama tóxica. Sete anos depois, as aguas permanecem contaminadas por metais pesados e são inutilizáveis (março de 2026) © Aurora Guainazzi E depois há os grandes desastres.
O rompimento das barragens de rejeitos de mineração em Mariana, em 2015, e em Brumadinho, em 2019, além de causar dezenas de mortes, também contribuiu para agravar ainda mais a fragilidade de um ambiente natural e social já severamente afetado pelo desenvolvimento de atividades extrativas. Quem depende das minas e quem se opõe à elas Ao nos aproximarmos de Brumadinho, Guilherme reflete:
“A mineração é algo muito complexo, pois também tem um impacto psicológico. Muitas vezes, temos comunidades onde alguns moradores vivem graças às minas, que geram empregos e recursos econômicos.
Mas, ao mesmo tempo, como vemos aqui, os depósitos estão praticamente dentro da comunidade.” Perto de Brumadinho, fervilham os caminhões cobertos de pó vermelho. A ferrovia que liga os depósitos da região ao porto de Vitória, no estado do Espírito Santo, atravessa o centro da cidade.
As águas marrons do rio Paraopeba – onde, após o rompimento da barragem, foram despejados aproximadamente 1,6 milhões de metros cúbicos de lama tóxica – correm a uma curta distância das casas. A ferrovia Minas-Vitória, de propriedade da multinacional brasileira Vale, conecta as minas da região ao porto de Vitória, no estado do Espírito Santo (março de 2026) © Aurora Guainazzi “Mas aqui também a gente coexiste com o poder econômico da empresa”, continua Guilherme.
Maria Emília já nos havia contado: “Um dos maiores crimes é colocar as pessoas umas contra as outras.
A tal ponto que o grande inimigo não é a multinacional, mas o vizinho que se opõe à mineração e impede o progresso. Ou, inversamente, o membro da comunidade que quer a abertura da mina, mesmo que isso cause danos ambientais e sociais.” Muitas comunidades em todo o estado estão agora divididas.
“Há algum tempo, por exemplo, lidamos com um caso de mineração envolvendo o município de Frei Gilberto, na Zona da Mata, no sul de Minas Gerais.” Era uma cidade muito pequena, explica Maria Emília, mas “as instituições estavam divididas. Até mesmo a Igreja: um lado se opunha à mineração, enquanto o outro aceitava em troca de recursos para construir e manter os edifícios religiosos.” Um dos maiores crimes é colocar as pessoas umas contra as outras.
A tal ponto que o grande inimigo não é a multinacional, mas o vizinho que se opõe à mineração e impede o progresso. Ou, inversamente, o membro da comunidade que quer a abertura da mina, mesmo que isso cause danos ambientais e sociais.
Maria Emília da Silva, vice-diretora do Instituto de Direitos Humanos E o poder das multinacionais é tão grande que lhes permite influenciar até mesmo as instituições que deveriam proteger a população: “Em nosso sistema judiciário, existe um órgão chamado Defensoria Pública, responsável por defender o povo gratuitamente.
Mas, em muitos municípios, a Defensoria Pública não dá voz aos cidadãos. Os juízes não dizem abertamente ‘eu apoio a mineração’, mas, ao mesmo tempo, não fazem tudo o que deveriam e poderiam para garantir que as demandas da população sejam ouvidas”.
Política e multinacionais, uma combinação vencedora Alguns dias depois, viajamos para o sul de Minas Gerais. Mas a paisagem permanece inalterada.
Logo que deixamos Belo Horizonte, as montanhas cobertas por árvores verdejantes se intercalam com as manchas marrons de minas a céu aberto. De fato, em todo o estado, os projetos de mineração prosperam, encontrando poucos obstáculos.
Eduardo Gabão, especialista em comunicação do Instituto de Direitos Humanos, nos explica: “Na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, apenas 20-25% dos deputados são contra a mineração”.
“Normalmente, o campo progressista se opõe à mineração, enquanto o campo liberal aprova a abertura de minas. Atualmente, em nossa Assembleia Legislativa, a proporção é de 20 a 80.
E até mesmo nosso governador Romeu Zema (que renunciou no dia 22 de março para concorrer à presidência da República e foi substituído por seu vice-governador, Mateus Simões, que tem uma orientação muito semelhante, n.d.r.) é totalmente a favor da mineração”. Assim, muitas medidas estatais que protegem as comunidades e o meio ambiente foram reduzidas ou mesmo eliminadas, abrindo novas oportunidades para a mineração.
Operações de mineração na mina Emesa, perto de Brumadinho (março de 2026) © Aurora Guainazzi “Por exemplo” – pontua Guilherme – “ao longo da Serra do Espinhaço vivem comunidades tradicionais, como indígenas, quilombolas (descendentes dos escravizados africanos que chegaram ao Brasil durante o tráfico atlântico, n.d.r.) e pescadores”. Apesar de não possuírem títulos de propriedade privada oficialmente registrados, essas comunidades historicamente sempre habitaram as terras em que vivem.
“Portanto, antes de iniciar qualquer atividade econômica em seus territórios, a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (ratificada pelo Brasil em 2002, ndr) estabelece a obrigação de consulta livre, prévia e informada”, destaca Guilherme. Mas, na realidade, isso não acontece.
“As empresas de mineração são grandes financiadoras de campanhas políticas”, continua Eduardo. Assim, a maximização dos lucros beneficia a todos, multinacionais e políticos.
Os impactos sobre a população são de pouca importância. Mídia neutra, talvez “E, graças aos recursos financeiros que possui, o setor de mineração também tem muita influência na mídia”, enfatiza Eduardo.
De fato, Belo Horizonte está repleta de outdoors que anunciam atividades de mineração. Às vezes, eles nos lembram da importância crucial dos minerais para muitos aspectos – até mesmo comuns – da vida cotidiana, como ter um computador ou um celular.
Em outros casos, destacam os avanços tecnológicos e os esforços de restauração ambiental das multinacionais. “A estratégia é sempre a mesma: apenas o lado positivo da mineração é mostrado para tranquilizar a população e aumentar o apoio das multinacionais.
Isso, na verdade, é um outro componente da estratégia das empresas destinada a criar conflitos dentro das comunidades”, explica Eduardo. “Aparentemente, a mídia local adota uma postura neutra.” Evitando criticar abertamente as operações de mineração e limitando-se a reproduzir notícias ‘oficiais’, elas garantem o financiamento das empresas e a sustentabilidade das redações.
“Isso não acontece só aqui em Minas Gerais, é um problema nacional” – enfatiza Eduardo – “Por outro lado, existem alguns grupos que se opõem à mineração e dão voz aos ativistas e à população, mas, em geral, têm pouca influência. No nosso estado, por exemplo, temos o Brasil de Fato, um jornal popular.” Tentamos dialogar com outros veículos de comunicação para desenvolver uma contranarrativa.
Nós também temos nossos próprios materiais para mostrar o outro lado da mineração, o lado negativo. Eduardo Gabão, especialista em comunicação do Instituto de Direitos Humanos Como especialista em comunicação, Eduardo também destaca a dificuldade de operar nas redes sociais:
“Os algoritmos favorecem quem paga. E, neste caso, obviamente, isso significa as empresas de mineração.
É por isso que tentamos dialogar com outros veículos de comunicação para desenvolver uma contranarrativa. Nós também temos nossos próprios materiais para mostrar o outro lado da mineração, o lado negativo”.
Minas, minas e também minas Ao percorrermos a BR-040, a rodovia que atravessa o sul de Minas Gerais, em um certo ponto, nos deparamos com uma mina. Enorme.
Contudo, nós vislumbramos apenas por um instante: nosso olhar mal tem tempo de captar as profundas cavas, os veículos em movimento e as máquinas na encosta da montanha antes de ser imediatamente bloqueado por uma densa faixa de vegetação verde. Quase sem perceber, estamos atravessando a Mina de Fábrica, onde a multinacional brasileira Vale extrai grandes quantidades de ferro.
Considerando tudo – o fato de não termos noção da verdadeira dimensão do depósito e de seus impactos – era exatamente o que a empresa queria. Construir aterros artificiais, plantar faixas de vegetação nativa (regadas periodicamente para remover o pó, mantendo uma cor verde brilhante que contrasta com o vermelho circundante) e tentar explorar os esconderijos proporcionados pela topografia natural do terreno são estratégias comuns empregadas por empresas de mineração para camuflar suas operações.
Algumas empresas estão até mesmo experimentando pintar seus depósitos e maquinários com cores que se misturam ao ambiente ao redor. Uma das minas ao longo da BR-040 no sul de Minas Gerais (março de 2026) © Aurora Guainazzi Mas essas estratégias – talvez eficazes para reabilitar a imagem das empresas aos olhos dos moradores e dos turistas nas proximidades – pouco fazem para combater as tecnologias de satélite, cada vez mais utilizadas por ativistas e organizações da sociedade civil para monitorar o desmatamento e a movimentação de terra.
Assim, graças também a isso, a luta das organizações de direitos humanos – incluindo o Instituto de Direitos Humanos – por uma Minas Gerais livre de minas e seus impactos continua. L'articolo “Hoje fazemos o turismo da devastação”, entre as minas de Minas Gerais, no Brasil proviene da Lo Spiegone.